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Kneecap fala sobre ‘FENIAN’ e primeiro show no Brasil

É nesta sexta-feira (23) que o Kneecap faz sua aguardada estreia no Brasil. O grupo se apresenta no Cine Joia, em São Paulo, em sua primeira vinda ao país, pela Balaclava Records. Os ingressos estão à venda na Ingresse. Antes de pisar em solo brasileiro, e numa conversa via Meet com um copo de cerveja […]

É nesta sexta-feira (23) que o Kneecap faz sua aguardada estreia no Brasil. O grupo se apresenta no Cine Joia, em São Paulo, em sua primeira vinda ao país, pela Balaclava Records. Os ingressos estão à venda na Ingresse.

Antes de pisar em solo brasileiro, e numa conversa via Meet com um copo de cerveja nas mãos, Mo Chara conversou com a Billboard Brasil sobre essa performance no país.

Ele não esconde a expectativa sobre o público. “A gente ouviu falar muito das plateias sul-americanas, de como o público fica louco no Brasil, na Argentina e em todos esses outros países da América do Sul. Então, a expectativa número um é ver se tudo isso está à altura da fama”, contou. “Ouvi dizer que vocês gostam muito de uma festa, que é algo que a gente ama.”

Formado em 2017 em Belfast, capital da Irlanda do Norte, o trio de Mo Chara, Móglaí Bap e DJ Próvaí mistura hip-hop e punk-rave e rima predominantemente em irlandês, língua que defende de forma irreverente. O nome da banda é uma referência direta a uma prática associada ao Exército Republicano Irlandês (IRA): alvejar os joelhos de quem era considerado traidor ou criminoso.

Para quem se pergunta como é cantar para um público que não entende a letra, Mo Chara tem a resposta na ponta da língua. “A gente recebe essa pergunta quando vai a lugares onde nunca tocou: ‘O que vocês acham de o público não entender vocês?’. O público não entende a gente nem na Irlanda. As pessoas na Irlanda nem falam irlandês, então ninguém entende a gente em casa também. Não faz diferença nenhuma.”

O sucesso internacional também pegou o grupo de surpresa. “Quando começamos, achávamos que seria só para nós e para os nossos amigos. Não imaginávamos que iria além do nosso grupo de amigos, quanto mais além de Belfast, depois da Irlanda, depois da Europa e tudo mais. Nenhum de nós esperava isso, ainda mais rimando predominantemente em irlandês”, lembrou.

Kneecap
Kneecap

A virada veio com o filme “Kneecap” (2024), cinebiografia em tom de comédia dramática em que os próprios integrantes interpretam versões de si mesmos. O longa estreou no Festival de Sundance e foi o representante da Irlanda na disputa por uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional.

“Acho que foi quando o filme saiu que a gente ganhou de verdade um público mundial. A música já ia bem, e já sabíamos que havia interesse no Kneecap por parte de pessoas de diferentes origens, mesmo que não falassem irlandês. Mas depois do filme percebemos o quanto aquilo era internacional”, disse.

Para Mo Chara, a conexão vai além do idioma. “Acho que isso tem a ver com o fato de que, assim como aconteceu com a língua irlandesa, não há muitos cantos do planeta que não tenham sido afetados pelo colonialismo. Pessoas de todas as origens, religiões, culturas e línguas, todos nós temos essa história comum de colonialismo. Acho que é isso que as pessoas veem no Kneecap, mesmo sem entender. Elas não entendem as palavras, mas acho que entendem as emoções e, talvez, a mensagem.”

‘FENIAN’ e a retomada da identidade

Em 1º de maio, o Kneecap lançou o segundo álbum de estúdio, “FENIAN”, pela Heavenly Recordings. Produzido por Dan Carey, o disco traz os singles “Smugglers & Scholars”, a faixa-título e “Liars Tale”, além de “Irish Goodbye”, parceria com Kae Tempest.

“O interessante é que, quando um álbum ainda não foi lançado, você passou os últimos oito, nove meses ouvindo. Ele ainda é meio seu, é o seu segredinho. Aí, quando você lança, claro que quer que as pessoas curtam”, contou Mo Chara. “Mas acho que com ‘FENIAN’, até no título, a ideia era retomar nossa identidade, nossa cultura e nossa língua.”

Segundo ele, o disco reflete um novo momento da arte irlandesa. “Por muito tempo, na Irlanda, as pessoas fizeram arte e música para exportação, para os americanos ou para o pessoal de Londres. Acho que agora a música irlandesa vive um momento em que as pessoas fazem música e arte para si mesmas. É isso que ‘FENIAN’ é: voltar às nossas raízes.”

O título também carrega peso histórico. “A própria palavra vem dos Fianna, que eram um bando de guerreiros, e acabou virando um termo pejorativo. Era um insulto usado contra irlandeses. Então, o álbum é sobre retomar quem somos e voltar a decidir nossos próprios rumos”, explicou.

“FENIAN” chegou depois de um período intenso. Desde o álbum de estreia, “Fine Art” (2024), o trio fez um dos shows mais comentados do Glastonbury nos últimos anos, tocou como atração principal em grandes festivais, lotou arenas em Dublin e Glasgow e se viu no meio de um turbilhão político por defender abertamente a liberdade palestina no Coachella.

Kneecap
Kneecap

“A gente ouve muito falar da ‘síndrome do segundo álbum’: você tem a vida inteira para escrever o primeiro e um ano para escrever o segundo, que precisa ser melhor que o primeiro. Você tira das experiências de uma vida inteira, em tese”, disse. “Mas, para sorte e azar do Kneecap, a gente viveu uma vida inteira de experiências no ano anterior a ‘FENIAN’, com processos judiciais e todos esses outros marcos. Então, para nossa sorte e nosso azar, aconteceu muita coisa entre ‘Fine Art’ e ‘FENIAN’.”

E o disco quase foi outro. “A gente já tinha um álbum meio pronto, mas ele não deu certo. Não era o momento. Aí entramos no estúdio com o Dan e começamos do zero. Não levamos nenhuma música daquele álbum que não funcionou”, revelou.

O processo de criação também foi novidade para o grupo. “A gente escrevia as letras enquanto o Dan produzia a música, ao mesmo tempo. Letra e produção andavam em paralelo. Foi algo muito orgânico, que nunca tínhamos feito antes. Esse foi o papel do Dan Carey, que merece muito crédito pelo álbum. Tudo foi resultado da confiança que havia na sala. Ninguém precisava ficar em cima de ninguém para as coisas acontecerem, porque confiávamos uns nos outros.”

O que esperar do show em São Paulo

Acostumado a grandes plateias, o Kneecap leva para o palco a energia que virou marca da banda. “Acho que às vezes é mais fácil tocar para uma plateia grande do que para uma pequena. Com plateias menores, você consegue ver cada pessoa. Num show grande, numa arena, é quase só um mar de gente. Então pode ser até mais tranquilo, e tem muito mais energia. Para nós, o que faz um show dar certo é a energia. Quanto mais gente, mais energia, e melhor o show”, contou.

Segundo Mo Chara, o repertório foi pensado para os palcos. “A gente sempre pensa em quais músicas funcionam ao vivo e em que tipo de som queremos agora que tocamos em arenas e casas maiores. Queremos um som maior, que consiga viajar e preencher espaços grandes.”

Sobre o setlist em São Paulo, ele faz mistério. “ […] acho que podem esperar algumas músicas antigas, algumas novas de ‘FENIAN’ e, se o público se comportar muito bem, talvez algumas inéditas. Talvez.”

Antes de subir ao palco, o ritual mudou com o tempo. “Antes era vomitar, mas estou meio que superando isso. Eu vomitava muito. Hoje a gente basicamente ouve rebel music [canções rebeldes irlandesas] no último volume, grita no camarim, toma uns drinques e aí está pronto.”

A passagem pelo país será rápida, mas o grupo quer aproveitar. “Nunca fomos. O mais perto que já cheguei foi o México, e isso é bem longe. Por isso estamos muito animados para aprender muito mais sobre a cultura, a comida, a bebida e a música do Brasil. Acho que chegamos num dia, temos aquela noite livre e o show é no dia seguinte. A gente quer ir rebolar em algum lugar.”

Para o público entrar no clima, Mo Chara ensinou uma frase em irlandês para ser gritada no Cine Joia: “Tiocfaidh ár lá”, que significa “nosso dia chegará”. Historicamente associada ao movimento republicano irlandês, a expressão é presença constante nos shows do grupo. “É um clássico”, disse.

Ouça Kneecap

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