A cantora e compositora Janine Mathias tem a trajetória contada nas telas de cinema no documentário “Nunca Foi Sorte”. A produção acompanha os bastidores da carreira da cantora brasiliense radicada em Curitiba, desmistifica a ideia de acaso no meio musical e destaca as redes de afeto fundamentais na caminhada da compositora.
Nascida na capital federal e moradora da capital paranaense desde 2008, Janine construiu uma identidade sonora única. O encontro musical une as raízes do samba, herança direta de seu pai, com a vivência do rap que conheceu nas ruas de Brasília. A partir dessa fusão, o longa investiga as engrenagens da carreira artística.
Dirigido por Larissa Nepomuceno e Bruno Costa, o filme desloca o olhar do público dos palcos para a vida real. A narrativa revela os desafios do cotidiano de Janine Mathias, abordando a maternidade, a descoberta e a convivência com a doença celíaca, além da importância da religiosidade no processo criativo.
A diretora explicou o desafio de documentar uma vida com tantas camadas: “Acredito que a maior dificuldade foi o fato de estarmos falando de alguém tão plural. A Janine canta, escreve, é mãe, empreendedora, passou pelo rap, pelo samba. Tem uma trajetória que passa por diferentes cidades, casas e conheceu tantas pessoas importantes. Por mais que seja um longa-metragem, nunca há tempo suficiente para falar de tudo e apresentar todas as pessoas. Nossa estratégia foi usar a música como fio condutor”.

Realizada com recursos da Lei Paulo Gustavo, a obra reforça a presença de mulheres negras no audiovisual e reflete uma reivindicação direta sobre narrativas biográficas, valorizando a complexidade do dia a dia.
“Esse filme nasce da necessidade de retratar minha história. Ao longo da história da humanidade vemos pessoas negras serem retratadas após sua morte, ou após grandes feitos e até mesmo histórias tristes. Eu quero flores em vida”, disse Janine Mathias. “‘Nunca Foi Sorte’ é sobre uma trajetória marcada pela arte, pela oportunidade que políticas públicas trazem e pela luz ancestral que carrego.”
A cantora também destacou a dimensão coletiva de levar a vivência para as salas de exibição: “Cresci sem me ver nas telas, agora quero que o mundo veja mulheres como eu, em sua multiplicidade sendo coroadas pela beleza de sermos voz neste tempo. Dedico este filme ao meu filho e ao país que acredito ser imenso e cheio de pessoas brilhantes: maternamos, somos nascentes, somos rede de revolução”.
Muito além do cinema, a discografia de Janine Mathias comprova o talento e o trânsito entre diferentes ritmos. O currículo da cantora inclui o EP “Eu Quero Mergulhar”, o disco “Dendê” e o elogiado “O RAP do Meu Samba”, projeto que contou com a direção musical de Rodrigo Campos. Ao longo dos anos, Janine já dividiu o palco com nomes de peso da música brasileira, como Criolo, Sandra de Sá, Fabiana Cozza, Rincon Sapiência, Ellen Oléria e Tassia Reis.

A veia artística e articuladora se estende para a produção cultural e para os projetos em família, já que ela é irmã do rapper Afrorraga, fundador da Escola do Flow. Desde 2014, a compositora comanda o projeto Samba da Nêga, voltado para a valorização da ancestralidade negra e da memória da música brasileira. Ela também está por trás de iniciativas de destaque na cena independente, como o Festival Axé, o Ginga e a ÍFÈ Personalizados.
O lançamento do documentário coroa um momento de expansão internacional da carreira. Em setembro de 2026, a cantora levou a turnê do álbum “O RAP do Meu Samba” para a Europa, com seis apresentações divididas entre Lisboa, Porto e Coimbra, em Portugal. Entre o rap e o samba, o filme registra uma história que ainda está acontecendo, reconhecendo em vida as conquistas de uma das vozes mais potentes da atualidade.
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