“Acho que muitas vezes as pessoas só querem ser descoladas, e estar apaixonado não é descolado. Mas eu acho que é a coisa mais descolada”, disse Mac Miller (1992-2018) à revista norte-americana “Vogue”, entre doses de espresso, em 2016. “Acho que o amor é a coisa mais descolada que existe.”
“The Divine Feminine”, que estreou em segundo lugar no Billboard 200, completou dez anos em setembro e voltou ao top 10 da parada nesta semana. O álbum foi fundamental na evolução artística de Mac, que deixou de ser um rapper de festa universitária para se tornar um músico sem limites. No disco, o rapper de Pittsburgh mergulhou, de forma onírica, nas complexidades do amor, da intimidade e da “energia feminina do planeta”, como ele mesmo definiu.
Oito anos depois de sua morte trágica, por uma overdose acidental aos 26 anos, o catálogo de Mac Miller está mais relevante do que nunca. Ele dominou o verão norte-americano com o forte retorno comercial de “Cinderella”, faixa de “The Divine Feminine”. A música se tornou o segundo single de Mac com melhor posição como artista principal, ao alcançar o 25º lugar do Billboard Hot 100 em julho.
“Senti que era o Mac falando do céu, cara”, contou à Billboard Ty Dolla $ign, que canta o refrão apaixonado de “Cinderella”, sua primeira colaboração oficial com Mac. “Senti que ele estava falando lá de cima com a gente, tipo: ‘Ainda não acabei’. É como a Mariah Carey: todo Natal a música dela volta. A gente está vivendo um desses momentos.”

Ariana Grande como inspiração
A paixão por Ariana Grande alimentou a sensual jornada de oito minutos de Mac. A faixa começou a tomar forma no início de 2016, quando o produtor Dahi enviou ao rapper um loop de guitarra de Sunni Colon.
Dahi tocou a linha de baixo, com produção de Aja Grant, para completar o instrumental, lindamente inebriante. Mac, por sua vez, escreveu uma espécie de diário quente sobre a garota dos seus sonhos, na contramão do machismo estereotipado do rap.
A música foi gravada no EastWest Studios, em Los Angeles, e no Encore Studios, em Burbank, na Califórnia. Mac exibiu a voz rouca ao mostrar uma versão inicial da faixa a Ty Dolla $ign, que ele queria no refrão. “Lembro de estar nervoso enquanto gravava”, contou Ty. Mac não estava presente quando ele gravou os vocais de um refrão extenso, que pinta um retrato quente dos momentos que antecedem uma noite eufórica com uma mulher que ele deseja.
“Você pensa no formato: será que isso vai tocar na rádio?”, disse Dahi, sobre as discussões para cortar partes do refrão de Ty e tornar a música de amor pouco convencional mais fácil de digerir. “Na minha cabeça, era tipo: ‘Talvez a gente devesse cortar’, mas você estaria cortando metade do que ele disse. Então todo mundo falou: ‘Vamos deixar’. Eu amei.”
Dahi completa: “Era a música favorita do Mac no álbum. Ele falava: ‘Nossa, isso é muito especial’. É um pouco agridoce, porque ele não está aqui para ver os frutos do que fez.”
Usar o amor como musa criativa não era novidade para Mac. No começo da carreira, ele já tinha mostrado gosto por arranjos exuberantes e pelas sutilezas do romance em faixas como “Youforia” e “Someone Like You”, do álbum “Watching Movies With the Sound Off” (2013).
O rapper virou a página com a namorada da época do colégio, Nomi Leasure, e entrou em um novo território amoroso: o relacionamento com Ariana Grande, que começou a se desenhar no início de 2016. A atenção sobre a vida amorosa de Mac aumentou, já que o namoro despertou o interesse do TMZ e de outros tabloides, além dos olhares atentos de milhões de Arianators, como são chamados os fãs da cantora.
“Eu presumi que era [sobre a Ariana]”, disse Dahi sobre “Cinderella”. “Não que ela fosse exatamente a musa dele, mas, quando ele escrevia uma música, ela era muito atual em relação ao que ele estava vivendo naquele momento. Acho que ela não foi ao estúdio. Às vezes, ele falava com ela pelo telefone.”
Versos como “I know you got expensive taste” (“Eu sei que você tem gosto caro”) faziam mais sentido quando ligados à estrela pop. Mac Miller e Ariana namoraram por cerca de dois anos e terminaram em maio de 2018. No mesmo mês, Mac foi preso por dirigir embriagado, e Ariana recebeu críticas. Ao respondê-las no X (antigo Twitter), ela confirmou que era o tema de “Cinderella”, mas de nenhuma outra faixa do disco.

Viral no TikTok
Em maio de 2026, “Cinderella” viveu uma explosão e entrou no Hot 100 graças a uma trend viral no TikTok, que apresentou a faixa a uma nova geração.
Milhões de usuários da geração Z e millennials fizeram vídeos com “Cinderella” como trilha sonora para mostrar um romance de conto de fadas com os parceiros atuais. Outros reviveram a fase de lua de mel e a nostalgia de relacionamentos passados, com fotos antigas e vídeos emocionantes.
Os vídeos começavam com a voz de Mac no fim do segundo verso: “I yell your name, Cinderella/ Never gonna find nobody better, all my life” (“Eu grito seu nome, Cinderela/ Nunca vou encontrar ninguém melhor, em toda a minha vida”). Depois, seguiam para o refrão cheio de desejo de Ty: “I been waitin’ all night for this moment/ I been waitin’ all year for this moment” (“Esperei a noite toda por esse momento/ Esperei o ano todo por esse momento”).
Outros usuários transformaram “Cinderella” em verbo, com legendas como “I’m so cinderella by Mac Miller about you” (algo como “estou muito ‘Cinderella’, do Mac Miller, por você”). No fim de junho, mais de 13 milhões de vídeos já tinham sido feitos com a música na plataforma.
“Eu ouvia as pessoas dizendo: ‘O TikTok é o caminho, se estourar no TikTok, vai estourar’. Sendo da minha geração, eu sou do jeito antigo de fazer música, então ia esperar para ver se isso realmente importava”, disse Ty Dolla $ign. “Agora eu vejo claramente e assino embaixo que o TikTok importa. É um dos recursos que você pode usar para levar sua música a outro nível.”
Mas por que exatamente “Cinderella” estourou uma década depois? Vários fatores podem explicar. Os fãs de hip-hop têm apetite pela nostalgia de 2016, uma espécie de ano dourado da era moderna, e artistas que dominaram aquele período, como Fetty Wap, vêm tendo um retorno viral. “Again”, de Fetty, voltou ao Hot 100 em 41º lugar em fevereiro de 2025.
Na era atual de descoberta musical, músicas esquecidas chegando às paradas ficaram mais comuns. No ano passado, faixas como “Breakin’ Dishes” (2007), de Rihanna, e “Let Down” (1997), do Radiohead, estrearam no Hot 100.
O catálogo de Mac é mais ouvido hoje do que quando ele estava vivo. O rapper soma quase 44 milhões de ouvintes mensais no Spotify, o maior número que já registrou. O mainstream da música também está menos receptivo ao hip-hop do que em anos anteriores, o que deixa espaço livre. Drake é o único rapper a emplacar um hit no top 10 do Hot 100 como artista principal em 2026.
Até 1º de outubro, “Cinderella” acumulava 495,5 milhões de streams oficiais sob demanda nos Estados Unidos. Desse total, 237,1 milhões aconteceram só em 2026. A música entrou na parada em 60º lugar em meados de maio e chegou ao 25º lugar em julho. Em 22 semanas no Hot 100, a faixa segue no top 50. Ela também vem subindo no Rhythmic Airplay, em que entrou no top 10 (nono lugar) e ainda ganha força.
“É um pouco agridoce, porque ele não está aqui para ver os frutos do que fez”, disse Dahi. “Esse é o poder da arte. Na maior parte das vezes, a gratificação instantânea não é o que deveríamos buscar. Você precisa deixar a parada cozinhar, e é na maratona que você consegue ver o quanto ela é impactante.”

O clipe de ‘Cinderella’
Com o retorno da música, o clipe de “Cinderella” também ganhou fôlego. Dirigido por Bo Mirhosseni, o vídeo de 2017 já soma mais de 27 milhões de visualizações.
“Sei que muita gente que trabalhou com ele diz isso, mas foi um dos melhores caras com quem já trabalhei. Não só era extremamente profissional no set e em tudo, mas também topava experimentar e fazer umas coisas estranhas”, disse Mirhosseni.
“Cinderella” marcou a primeira parceria de Mirhosseni com Mac. A relação dos dois começou em um encontro na casa do rapper, para discutir a visão dele para o clipe enevoado. Mirhosseni conta que ficou impressionado com o conhecimento de Mac sobre cinema quando apresentou referências cinéfilas, como o thriller de mistério “Vidas em Jogo”, de David Fincher, e “Amor à Flor da Pele” (2000), de Wong Kar-Wai.
“Ele nunca entrou no modo celebridade”, disse Mirhosseni sobre Mac. O diretor contou que, mesmo quando o orçamento acabou, o rapper tirou dinheiro do próprio bolso para bancar o resto do clipe. “Ele estava 100% comprometido. Amava todas as minhas ideias, a ponto de eu falar: ‘Tá bom, você pode dizer não’.”
O clipe foi gravado ao longo de uma noite em março de 2017, em um estúdio no leste de Los Angeles. O resultado é uma odisseia de 12 minutos, dividida em várias partes, em que o rapper aparece em um sonho alucinógeno. Nele, Mac persegue sem fim um anjo que está ao seu alcance, mas que ele nunca consegue segurar de vez.
Edição de dez anos
A família de Mac Miller tem sido extremamente cuidadosa e delicada com o legado do rapper. O espólio lançou em 2 de outubro uma edição de dez anos de “The Divine Feminine”, com três faixas novas (“Butterflies”, “Grand” e “Channel 13”) gravadas durante as sessões do disco. Com a reedição, o álbum saltou do 159º para o décimo lugar no Billboard 200 desta semana.
Com o interesse renovado dos fãs por “Cinderella”, Ty Dolla $ign tem encerrado seus shows com a parceria de 2016 durante a The Neo Trapsoul Tour, turnê de Bryson Tiller. Mas, para Ty, o tempo não curou a ferida deixada pela morte precoce do amigo.
“Nas últimas quatro ou cinco vezes que cantei essa música, ela me desmontou por dentro. O Mac era um dos meus parceiros”, explicou Ty, que conheceu Mac por meio de Wiz Khalifa no início da década de 2010. “Ele se importava de verdade com as mesmas coisas que eu. Ele era muito sobre amor, sobre a música e sobre ir além do rap.”
Ty continua, com franqueza: “Quando o Mac morreu e a gente fez o primeiro show no Greek Theatre, foi a primeira vez que minha filha me viu chorar. Aquilo me desmontou naquele dia, me desmontou no Tiny Desk, e agora, toda vez, é a única música em que o público está lá em cima e eu estou chorando. De todas as mortes, incluindo familiares e melhores amigos, essa é a única. Isso acaba comigo.”
Ouça ‘The Divine Feminine (10th Anniversary)’, de Mac Miller
[Este conteúdo foi traduzido e adaptado da Billboard. Leia o texto original, em inglês, aqui]
